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terça-feira, 21 de julho de 2015

Alan Moore Diz que Super-Heróis São Uma "Catástrofe Cultural"




Alan Moore declarou ao jornal inglês The Guardian, que os super-heróis são uma catástrofe cultural. Nas palavras dele: “Na minha cabeça, essa adoção de coisas que, quando da sua inserção nos meados do século 20, eram personagens infantis nada ambíguos parece indicar uma compensação para as admitidas e estafantes complexidades da existência moderna”, disse Alan Moore naquela que poderia ser sua última entrevista. “A mim, me parece muito mais que uma parcela significante do público, tendo abandonado suas tentativas de entender a realidade em que eles realmente vivem, têm, pelo contrário, racionalizado que ao menos seriam capazes de compreender os enrolados, sem sentido, mas ao-menos-ainda-finitos ‘universos’ apresentados pela DC ou Marvel Comics. Gostaria de observar que isso pode ser catastrófico culturalmente: ter uma efemeridade de um século passado dominando possessivamente o palco cultural e se recusando a permitir a essa era que é, com certeza, sem precedentes, de desenvolver sua própria cultura, relevante e suficiente para esses tempos”.
Meus cabelos continuam os mesmos, mas minha opinião... quanta diferença!
Meus cabelos continuam os mesmos, mas minha opinião… quanta diferença!
Vamos tentar analisar essa catástrofe anunciada por Alan Moore? Vou dar duas visões sobre essa previsão: uma concordando e outra discordando. Começo pela que anui com Moore. Como vimos nesse post, alguns leitores de quadrinhos se recusam a interpretar quadrinhos de uma forma mais profunda do que apenas “quem é mais forte o Hulk ou o Thor?”. Os quadrinhos provocam isso ou se trata da falta de interesse por uma cultura diferente? Seria a bitolação na cronologia ou no poderio dos heróis que levam a interpretações tão rasas? Ou os quadrinhos de hoje estão em movimento apenas pela “massaveice” ao invés de lidarem com assuntos mais profundos da existência?
As facas Ginsu cortam as meias Vivarina?
As facas Ginsu cortam as meias Vivarina?
Sim, alguns leitores não conseguem ir mais a fundo do que um quebra-pau. Assim como tem gente que não desliga do futebol e faz disso o seu sentido de vida. Só que diferente de todos os jogos de futebol, alguns quadrinhos podem, sim, revelar segredos profundos da existência. Basta saber procurar. Há quadrinhos que ensinam a respeitar. Há quadrinhos que ensinam a se relacionar. Há quadrinhos que ensinam a ler, a interpretar, a buscar informação, a desenhar. Santa metalinguagem, Batman! Os quadrinhos ensinam até a fazer quadrinhos! Só não entende quem não vai atrás.

Vamos falar de coisa boa? Fuja da realidade evnha para um reino de fantasia! Tudo por três parcelinhas de mil reais!
Vamos falar de coisa boa? Fuja da realidade e venha para um reino de fantasia!
Tudo por três parcelinhas de mil reais!
Sim, quadrinhos são escapismo. Desde sempre eles foram uma forma de fugir da realidade. Oras, os super-heróis foram criados como um alívio para as frustrações da Grande Depressão de 29 nos Estados Unidos. Um sopro de otimismo num mundo desesperançado, apoiado nos super-heróis. E talvez, o mundo de hoje, conflituoso e radical como anda, precise mesmo dessa catarse, desse alívio, só que dessa vez, nas telas do cinema. Os quadrinhos são escapismo, mas também são uma maneira de voltar ao mundo real. É impossível não se identificar com um mísero personagem que tenha os mesmos problemas que a gente, sejam eles financeiros, sociais, românticos, éticos ou morais. Os super-heróis sempre foram um símbolo de esperança, eles são como os fios de Ariadne, ajudando nós, os Perseus, a nos guiarmos no labirinto da vida, a fim de fugirmos dos problemas-Minotauros.
Nada mais natural que a sociedade se volte para os quadrinhos em tempos difíceis. Mas um problema dos quadrinhos de super-heróis é a simplificação. Neles, existe o lado do bem e o lado do mal. No mundo, como diria o Padre Quevedo, esto no ecsiste! No mundo real existe posicionamento e consequências. Ou você é favor ou contra algo, isso não quer dizer que você seja um vilão ou um gênio do mal por se posicionar. Mas deve arcar com o resultado do seu posicionamento.
O tiro saiu pela culatra?
O tiro saiu pela culatra?
Existem questões que não são um caso de bem e mal, mas um caso de penumbra. Como a legalização do aborto e a própria aprovação da maioridade penal. A escolha de nossos representantes políticos são casos de penumbra. Para isso se fez a democracia, o governo do povo, onde a maioria decide o que é melhor para todos. Mas nem sempre a maioria está certa. E então? Como se resolve? Aí podemos nos apoiar na verdade dos super-heróis e não fazer a vontade da maioria, mas o que é justo. Mas, como saber o que é justo? Juízes estudam anos de direito e ainda assim se encontram em sérias dúvidas. Então, quem somos nós, meros mortais, e que direto nós temos de fazer julgamentos? Sermos júri, juízes e executores como no caso do homem que foi amarrado nu num poste, ou da mulher linchada por quatrocentas pessoas, ou nas ações do ISIS em assassinar um soldado ou um jornalista ao vivo?
Alan Moore é o novo Grumpy Cat
Alan Moore é o novo Grumpy Cat
Mas Moore toca numa ferida maior: que os super-heróis estariam se espalhando como um câncer cultural, dominando todo o corpus das manifestações humanas. Sabemos que isso não é verdade. Filmes de super-heróis se tornaram um gênero hoje em dia graças à tecnologia do cinema. Ao mesmo tempo, as séries de TV estão tomando o lugar do cinema. Serviços de streaming na internet como o Netflix estão tomando o lugar da televisão. Junto a tudo isso existem os torrentes e a pirataria digital, que também envolvem os quadrinhos. É a evolução do mundo. Na verdade o que Moore parece são aquelas velhas que reclamam que “no meu tempo era melhor”, ou até mesmo aqueles fãs birrentos que acham que o verdadeiro super-herói é essa ou aquela versão. Só que a birra de Moore é com o mundo. Ele era fã do mundo antigo. Só que o mundo mudou e Alan Moore ficou pra trás. Desculpa.