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sábado, 21 de março de 2015

Entrevista com Ednardo Nogueira

Com uma produtividade incansável que vem conseguindo seu devido reconhecimento, no desenvolvimento de seu legado, Ednardo Nogueira é artista gráfico autodidata desde 1988. Atua como desenhista publicitário, tatuador e profundo pesquisador no seu trabalho que explora lindamente a história colonial de sua terra natal, o estado do Ceará e um pouco mais do nordeste brasileiro. Demonstrando humildade e a segurança de quem sabe muito bem o que caminho que está trilhando, Ednardo cedeu gentilmente a entrevista abaixo.


Clube dos Quadrinheiros de Manaus: Há algum tempo que você vem realizando uma série chamada Contos do Siará, onde você explora os elementos históricos do nordeste brasileiro, inclusive da época de colonização. Como se dá o seu processo de pesquisa para a série e como tem sido a sua aceitação?

Ednardo Nogueira: Há precisamente três anos que estou escrevendo e desenhando esse projeto chamado Contos do Siará; e é uma produção independente não comissionada por editor algum, senão pelo meu próprio interesse em produzir alguma coisa de nossa cultura que leve nosso povo a alguma reflexão, que eu mesmo estou sendo levado, à medida em que me dedico a esta produção.
E a pesquisa é mais difícil do que imaginava.
Realmente tenho visto um desinteresse tão grande, tanto nas pessoas de conhecerem sua história como nas instituições em fazerem essa história ser mais conhecida. Veja bem! Como por exemplo que três documentos históricos importantíssimos: um escrito pelo padre Figueiras em 1608, outro pelo Martim Soares Moreno em 1612 e o Diário de Matias Beck de 1649. Esses documentos, que eu imaginava que ia encontrar várias edições em qualquer livraria foram publicados pela última vez em 1967, peloInstituto do Ceará; e eu só tive acesso a esta edição do grande Thomás Pompeu Sobrinho, graças a um amigo historiador, o Ernane Pereira, que me emprestou a raridade, cujas páginas amareladas se rasgam sob ferrugem dos grampos.
Então minha pesquisa só foi possível graças a internet e aos amigos historiadores que ao conhecerem meu trabalho me ajudaram suprindo material em forma de links, livros e orientações.
Eu me dediquei a ler os historiadores Raimundo GirãoCapistrano de AbreuGustavo BarrosoBarão de Studart e outros mais. De repente me vi tendo de entender a questão indígena, as questões dos negros, então passei a conhecer e manter contato com pessoas ligadas aos atuais movimentos, entre eles o historiador e escritor Hilário Ferreira, engajado até os dentes no movimento Consciência Negra, e o cacique Dourado.
Ednardo Nogueira na prática de sua maior paixão: o desenho
Eu leio muito. Não só para conhecer a história como também compreendê-la, e isso se estendendo para a história do Brasil e de Portugal, França e Holanda.
Tendo o texto em mãos, passo a desenhar simultaneamente, e ao desenhar, vou reinterpretando a história, e como se trata do quadrinhos e não de um livro ilustrado, tenho que criar personagens e situações fictícias para desenvolver prováveis diálogos. Então entra a parte da ficção. Acho que isso exige muito de alguém que não é escritor profissional. Infelizmente não encontro ninguém disposto a entrar nessa missão de escrever para mim.
As pessoas aceitam muito bem e com muita admiração o nosso Contos do Siará. Dos primeiros capítulos que faço impressões avulsas e vendo. As pessoas compram, lêem, gostam e depois me procuram para saber quando será publicado. Já duas emissoras de TV vieram me entrevistar, diretores me chamam pra oficinas de desenhos nas escolas infantis, professores me contratam para fazer alguns desenhos pra monografias. Recentemente fins uns desenhos para o Instituto Maria da Penha... E assim a caravana segue firme e forte.

C.Q.M.: Você sempre disponibiliza os rascunhos de seus desenhos, mesmo antes de vários deles serem publicados. Você nunca teve problemas devido a isso?

E. N.: Se fosse possível, se eu tivesse recursos e se não existisse a pirataria, eu distribuiria Contos do Siará gratuitamente, de pessoa pra pessoa. E as vezes faço isso, para determinadas pessoas que eu sei que me trarão um retorno bem mais valioso, mas é um risco vender o material avulso ou disponibilizar as páginas na internet. Entretanto, ainda vai demorar um pouco pra publicar essa obra, e de um jeito ou de outro eu tenho que divulgar e torná-la conhecida. Prefiro correr esse risco e, até agora, não tive problemas com plágios, certamente porque hoje, a febre dos super-heróis ainda está em alta. Um trabalho que se baseia na história colonial do Brasil é uma pérola oculta.
Realmente até mesmo quando apresentei Contos do Siará, na Feira de Empreendedores do SEBRAE, no Centro de Convenção do Ceará, os artistas e editores gostaram da idéia e do material, mas não vi real interesse em publicar. Muitos dizem pra mim, procurar os editais do governo e da prefeitura, talvez quando concluir o material, eu faça isso, mas não estou muito estimulado. Pois sempre que apresento a editoras daqui, eles falam em outros projetos de livros para didáticos e realmente me interessa fazer um trabalho desses. Será muito proveitoso, mas teria que ser um outro material com textos e especialistas da área da educação e os que atuam nessa área, até agora não me deram uma resposta concreta.

C.Q.M.: Quais suas maiores influências nos quadrinhos?

E. N.: Eu já fui um amante dos quadrinhos como todo desenhista iniciante, gostava muito da velha guarda de Jonh Buscema a John Byrne, passando por Frank MillerGarcia LopesRoy Thomas e Jim Steranko. Depois os brasileiros Mike DeodatoRoger Cruz e Joe Madureira, mas eram influências mais de admiração do que de inspiração. O que me influenciou forte mesmo, foram os europeus, principalmente o “pervertido”Serpiere e o ilustre Girard (Moebius). Além destes dois o coreano Klm Jung Gi e alguns artistas de Tex, por exemplo, o Civitelli. O meu trabalho atual segue mais essa linha e procura evitar o sensacionalismo do tipoMarvel – DC.
Não faço heróis super poderosos com roupas colantes e com complexos de identidade. Prefiro a ficção científica misturada com histórias. Gosto de trabalhos independentes como o dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Gosto do mineiro Marcelo Lelis ou de adaptações dos clássicos brasileiros, mas não deixo de admirar alguns artistas da Marvel como o Francis Manapul, e sempre que vejo os mega filmes atuais, dos eternos heróis, tenho um ataque de nostalgia e compro revistas antigas.

C.Q.M.: Percebe-se que você não utiliza quase nada de arte digital, valorizando assim, as técnicas tradicionais. Quais técnicas você mais se sente a vontade em realizar?

E. N.: Olha, eu sou um amante de arte e admiro todas suas formas de expressão, mas não consigo trabalhar, com prazer mesmo, senão com as técnicas tradicionais. Gosto do papel, da tinta Nanquim, lápis, pincel e bico de pena. Não desprezo os meios digitais, pelo contrário, estudo e utilizo o PhotoshopIllustrator e mesa digital, mas não domino tão bem a ponto de trabalhar a arte por esses meios. Faço algumas coisas como as capas, a quadrinização e o letreamento, mas não sei artefinalizar ou colorir e nem tenho um material adequado. Ainda estou aprendendo.

C.Q.M.: Além de quadrinhista, você também é tatuador. A tatuagem sempre esteve muito próxima das histórias em quadrinhos. Até que ponto você converge ambos?

Divulgação do trabalho de grande destaque de Ednardo
E. N.: Eu sempre estou me dedicando a alguma área do desenho. Já fiz outdoor, layouts, letreiros, pinturas e tatuagem é só mais uma outra atuação de minha vida profissional. Hoje como está em alta, tem sido meu atual trabalho, já que não se ganha a vida com quadrinhos tão facilmente.
Quando comecei, há uns onze anos atrás, os tatuadores separavam muito o desenho da tatuagem, como se isso fosse possível. Pra mim tudo é desenho, seja no papel, na tela ou na pele. Só muda as técnicas e ferramentas, e todo tatuador acaba investindo em cursos de desenhos, se quiserem se destacar mesmo. Por outro lado, nem todo desenhista consegue dominar a técnica da tatuagem que requer conhecimento e certa precisão na aplicação da tinta na epiderme.
Eu trabalho com meu irmão, o Dereka, no estúdio dele, a Freedom of Tattoo e apesar de eu desenhar há mais tempo, ele tatua muito melhor do que eu. Então o ponto de convergimento entre o quadrinho e a tatuagem é o conhecimento básico de desenho. O processo de criação é quase o mesmo, mas além da técnica diferenciada, tem também o estilo de desenho que na tatuagem segue um padrão sagrado que tem de ser respeitado. Criar algo novo é um grande desafio que as vezes pode ser um sacrilégio imperdoável!

C.Q.M.: Qual tatuagem mais estranha ou engraçada já lhe foi encomendada?

E. N.: Tem sempre alguma coisa. A galera tem cada idéia! E a intenção com o corpo é um campo cheio para a imaginação. Poderia citar algumas femininas bem ousadas, mas basta uma bem engraçada. Um pitbull nas costas de um cara, uma das pernas fica no braço, assim quando ele levanta o braço, o cão parecia levantar a perna para mijar. Esse trampo sempre desperta espanto em quem vê.

C.Q.M.: Tanto tatuagem como quadrinhos, exige muito tempo de dedicação para conclusão. Como você consegue conciliar o seu tempo a ponto de efetivar ambos com perfeição?

E. N.: Bem, os quadrinhos eu tenho que dedicar todo tempo disponível. Já a tatuagem, é o tempo comercial, mas nem sempre estou tatuando e aí posso fazer uma página ou duas. Mas as vezes não consigo desenhar quadrinhos, porque tenho que criar um desenho para tatuar alguém, e as vezes me falta inspiração para criar tatuagem, porque estou com boas idéias para os quadrinhos. Por isso, só consigo fazer bem uma coisa ou outra, se separar o tempo para me dedicar a uma de cada vez.

C.Q.M.: Além dessas suas duas artes, há alguma outra faceta de Ednardo que não tem tanto destaque?

E. N.: Sempre me sinto desafiado a conhecer alguma coisa, que simplesmente surge como uma vontade egoísta de saber por saber. Por exemplo, tocar violão, só para conhecer a teoria musical; aprender inglês, só para ler títulos originais; estudar história de coisas antigas, de como surgiu isso ou aquilo; de saber como algumas coisas funcionam, nada voltado para o trabalho, que as vezes só ocupam meu tempo, mas que eu tenho de conhecer por conhecer. Mas até que isso me ajuda de um jeito ou de outro.

C.Q.M.: Quais seus próximos projetos, suas metas de curto e longo prazo?

E. N.: Meu projeto de longo prazo é deixar completo o título Contos do Siará, para ser editado e reeditado quantas vezes forem possível; que se torne um trabalho permanente que não me exija mais tanto esforço de criar; que seja algo que meus filhos possam herdar e trabalhar, dando continuidade, talvez se estendendo para a história colonial de cada estado do Brasil e até mesmo para a história do Brasil Império, Brasil República, mas ainda a era Vargas e a época da ditadura militar, que pra mim é também um desafio para compreender, toda faceta que levou a estes acontecimentos. Eu vejo como um trabalho que Bonelli fez com Tex. Uma continuidade de histórias dentro de um arcabouço histórico. Se o tempo ou as tragédias da vida não me permitirem ir tão longe, desejo, pelo menos em curto prazo, deixar material e incentivo para que outros artistas brasileiros esqueçam um pouco o mercado “lá fora” e dediquem alguma energia para a nossa história.
Então meu projeto concreto atual é terminar Contos do Siará, que deve conter três volumes, este primeiro que fala da resistência indígena face a primeira expedição de 1603, o segundo sobre a missão dos jesuítasFigueiras e padre Pinto, nas serras da Ibiapaba em 1607, e por terceiro a missão de Martim Soares Moreno em 1612, que de fato fundou a província do Ceará e se imortalizou na obra de José de AlencarIracema, como o pai dos cearenses.

C.Q.M.: Deixe seus contatos e um recado para os leitores deste blog.

E. N.: As pessoas interessadas em conhecer e ajudar de alguma maneira neste meu trabalho de contar a história colonial do Brasil, podem ver meu blogwww.quadrinhocearense.blogspot.com , podem também entrar em contato pelo artecearense@gmail.com
Tenho também trabalhos de quadrinhos e tatuagens sempre sendo postadas no TwitterInstagramPinterestTumblrWordpress, todos como @ednardonogueira
O recado eu deixo para os leitores é que, conhecer a nossa história e expressar esse conhecimento em alguma forma de arte é um dos melhores objetivos a ser colocado diante de nós como um meio de dar mais importância à vida e combater a banalização da maldade e da violência, dessa época em que vivemos.